A pergunta marca a entrada no Ensino Secundário: 9.º ano, e agora? Ajudar os alunos a encontrar as respostas é o objetivo da orientação vocacional escolar.

 

Causa sempre muita ansiedade. O fim do Ensino Básico implica uma opção vocacional para os alunos que prosseguem os seus estudos para o Secundário. Terminado o currículo geral comum, diversifica-se a oferta educativa a tal ponto que as primeiras dúvidas de quem se prepara para concluir o 9.º ano têm a ver com a organização do Ensino Secundário, diz Maria do Rosário Ruivo, psicóloga na Escola Secundária de José Estêvão, em Aveiro. Por isso, defende que “o ideal seria que os programas de orientação escolar e profissional tivessem início no 7.º ano, para que quando os alunos chegassem ao 9.º ano já estivessem mais preparados e com maior maturidade vocacional”.

Para a maioria o caminho será o ingresso nos cursos de carácter científico-humanístico, onde existem quatro alternativas: Línguas e Humanidades, Ciências e Tecnologias, Ciências Socioeconómicas ou Artes Visuais. E ainda que a opção seja diferente, porque ainda restam outras modalidades de ensino, a escalada do Secundário terminará três anos mais tarde. Com ou sem intenção de prosseguir estudos ao nível do Superior.

A passagem do 9.º para o 10.º ano normalmente representa “um choque” para os alunos, concordam várias psicólogas dos Serviços de Psicologia e Orientação cujo Decreto-Lei n.º 190/91, de 17 de maio, tornou obrigatórios nos estabelecimentos de educação e ensino público. Em aproximadamente vinte sessões, os alunos com idades entre os 14 e os 15 anos são informados e aconselhados sobre as várias opções de ensino que têm pela frente. Até que seja tomada a decisão. E esteja encontrada a resposta à pergunta: 9.º ano, e agora?

A via geral de prosseguimento de estudos continua a ser a mais escolhida. No ano letivo de 2007/2008, a distribuição dos alunos matriculados no Ensino Secundário era esta: 65% frequentavam cursos gerais/ Científico-Humanísticos; 26% cursos profissionais/Cursos de Educação e Formação; 8% cursos tecnológicos e 1% ensino artístico especializado, mostram os dados do relatório “Educação em Números 2009”, divulgados pelo Gabinete de Estatística do Ministério da Educação. Nas escolas, esta tendência confirma-se.

Mas nem todos os cursos gerais estão na moda. Entre os quatro existentes, Ciências e Tecnologias é dos mais pretendidos, como se verificou nas escolas contactadas pelo
Educare.pt. Margarida Laborinho, psicóloga na Escola Secundária de Jacomé Ratton, em Tomar, confirma a preferência por Ciências e Tecnologias, nos alunos que orienta, mas alerta que esta escolha “nem sempre é feita por ser o curso com as disciplinas preferidas dos alunos, mas porque persiste a perceção subjetiva de que tem mais saídas no Ensino Superior”.

Nuno Lopes e Sara Carvalho, têm 15 e 14 anos, e são alunos do 9.º ano da Escola Básica 2.º/ 3.º ciclo e Secundária Santos Simões, em Guimarães. Ambos estão decididos a ingressar em Ciências e Tecnologias. Chegaram a essa decisão “por exclusão de partes”, explica Nuno. Foram sendo excluídos os cursos que poderiam condicionar futuras opções no 12.º ano. “Queria seguir algo ligado à Economia ou à Engenharia de Informática”, diz Nuno, e como as suas preferências apontam em duas direções, decidiu escolher “um curso que não fechasse já algumas portas”. O raciocínio foi pragmático: “Para Economia preciso de ter Matemática A e em Ciências e Tecnologias dá para seguir, Artes Visuais não gosto por isso se escolhesse este curso seria para baixar a média…”

Sara fez uma escolha mais emotiva: “Deixei-me guiar pelos interesses que tenho neste momento”. As suas preferências recaem sobre a Astronomia, a Medicina e o Direito. Os seus pais são advogados, mas escolher já o curso de Línguas e Humanidades não fazia muito sentido para Sara. “Se fosse por essa via teria logo de excluir as duas primeiras.” Pelo que a tática de Sara parece ser também a de não estreitar os caminhos académicos: “Ciências e Tecnologias é o curso que abrange mais áreas, mesmo ao nível do Ensino Superior”, justifica a aluna.

Fica assim ressalvada uma certa margem de erro que os dois admitem poder cometer, por entenderem ser cedo de mais para antever o futuro. Diz Nuno Lopes: “No 10.º, 11.º e 12.º anos ainda podemos mudar de opinião. Ainda assim, o aluno mostra-se confiante que daqui a três anos, quando se defrontar com a opção derradeira, terá “mais maturidade para tomar uma decisão mais concreta”.

Apesar de a maioria dos alunos preferir o ingresso nos cursos gerais, nos últimos 12 anos houve um decréscimo de matrículas nesta modalidade. No ano letivo de 1996/1997, os cursos gerias abarcavam 73% dos alunos matriculados no Ensino Secundário, em 2007/2008 a percentagem baixava para 65%.

A par desta descida, verifica-se um aumento do número de alunos a optar pelos cursos de carácter profissional, como confirmam as estatísticas ministeriais. No ano letivo de 1996/1997, apenas 7% dos alunos matriculados no Ensino Secundário frequentavam a via profissional ou Cursos de Educação e Formação (CEF), em 2007/2008 essa percentagem subia aos 26%.

Na Escola Secundária de Jacomé Ratton, em Tomar, “lentamente, os cursos profissionais têm vindo a reunir um número mais significativo de escolhas”, constata Margarida Laborinho. Fruto também da variedade formativa que disponibilizam.

De entre a oferta educativa, os Cursos de Educação e Formação são apontados como uma mais-valia, por proporcionarem a continuidade de estudos a alunos que, regra geral, terminado o 9.º ano sairiam do sistema educativo.

Muitas dúvidas
Dissipadas as interrogações sobre a organização do Ensino Secundário segue-se a maior de todas as dúvidas: “Será que tenho jeito para este curso?”

Por essa razão, qualquer programa de orientação escolar e profissional terá de englobar a abordagem de três temas: o autoconhecimento, o mundo das profissões e a oferta formativa pós-9.º ano. Importa primeiro que o aluno faça uma reflexão sobre os seus gostos: disciplinas escolares, áreas profissionais, atividades de tempos livres, a sua maneira de ser e valores. Para promover este conhecimento de si próprio, os psicólogos recorrem à realização de testes vocacionais de interesses profissionais e de aptidões intelectuais.

“Depois há as questões sobre o conteúdo funcional das profissões e os estereótipos sobre as mesmas e que provocam muitas dúvidas quando os alunos se confrontam com uma informação mais realista e adequada”, refere Maria do Rosário Ruivo, psicóloga na Escola Secundária de José Estêvão, Aveiro. “Um dos nossos papéis é desmontar alguns receios sobre empregabilidade”, acrescenta Elisabete Marques, psicóloga no Colégio Nossa Senhora do Rosário, no Porto.

Daí a importância do aprofundar do conhecimento do mundo laboral. Cabe ao psicólogo escolar motivar os alunos para a consulta de informação, em suporte papel ou digital, relativa a atividades profissionais. Mas também ajudar na recolha e na sistematização de informação referente aos seus interesses em termos de emprego futuro.

Neste ponto, é consensual entre os profissionais dos serviços de psicologia e orientação que eventos como feiras de educação e formação profissional ou semanas dedicadas às profissões constituem oportunidades muito valorizadas pelos alunos, por permitirem o contacto com profissionais das áreas que lhes interessam.

Por fim, é facultado ao aluno o acesso a informação sobre a oferta educativa nos vários estabelecimentos de ensino da região, nomeadamente cursos e disciplinas que os constituem, mas também saídas para o mercado de trabalho e opções formativas de prosseguimento de estudos no Ensino Superior. Quando toda a informação obtida ao longo das sessões de orientação vocacional está sintetizada, e se ainda houver tempo e disponibilidade, podem-se realizar entrevistas individuais com os alunos e encarregados de educação.
“É muito importante individualizar este processo de orientação, embora a tendência seja a abordagem em grupo, e também chamar os pais a participar”, esclarece Paula Fernandes, a psicóloga escolar que tem orientado Nuno Lopes e Sara Carvalho, na Escola Básica 2.º/ 3.º ciclo e Secundária Santos Simões, em Guimarães.

Os pais de Sara deixaram-na “à vontade” para decidir. Disseram-lhe: “Tu é que sabes, mas vê lá o que escolhes”, recorda a aluna afirmando entender bem a preocupação dos pais quanto ao seu futuro. “Os meus pais estão preocupados desde que eu entrei para a escola.” Nuno está certo que os seus pais pensam da mesma forma.

Paula Fernandes viu muitas vezes essa preocupação paternal causar bastante pressão nos filhos quando chegada a altura de escolher uma área. Da sua experiência como psicóloga escolar, Elisabete Marques também reconhece “alguma influência dos pais para que os filhos sigam determinados cursos que lhe deem acesso a faculdades prestigiadas”. A psicóloga depara-se também com pais que manifestam “um certo receio quando no 9.º ano os filhos optam pelas Artes Visuais”. Fruto do facto de esta ser uma área tida como de precariedade, no que diz respeito à empregabilidade. Uma áurea que partilha com as profissões ligadas às Línguas e Humanidades.

Nuno confessa sentir alguma ansiedade com as expectativas dos progenitores: “Às vezes sinto que os meus pais esperam de mim mais do que eu consigo ser.” Na base deste desabafo está um episódio vivido em família que Nuno recorda. “Há uns dias fomos ao Porto e quando passávamos de carro pela Faculdade de Medicina o meu pai disse: É para aqui que tens de vir!”

Desafio de orientar
“Orientar os alunos para cursos que gostam, mas que não têm saída é uma frustração”, constata Paula Fernandes reconhecendo que o “desafio” do seu trabalho como psicóloga escolar está em conseguir “projetar para 10 anos os cursos com mais saídas profissionais”.

Num mercado de trabalho cada vez mais imprevisível esta tarefa torna-se quase num ato de adivinhação. Todavia importante, já que as expectativas dos alunos os impelem a querer saber quais as “áreas de futuro”? “Não vou andar três anos no Secundário, mais cinco na Universidade para chegar ao fim e ser mais um desempregado!”, insurge-se Nuno justificando: “É uma vida de estudo que não é recompensada!”

Entre as aspirações dos pais e as transpirações dos filhos, “tentamos transmitir que a vocação e a aptidão são muito importantes, porque vão permitir que o aluno faça a diferença em determinada área e tenha sucesso”, esclarece Elisabete Marques, do serviço de psicologia escolar do Colégio Nossa Senhora do Rosário, no Porto. “A maior parte dos nossos alunos faz a escolha em função de possíveis cursos superiores, ou seja, não escolhem determinada área no 10.º ano só porque gostam das disciplinas.” Por tudo isso, a psicóloga admite que vê os alunos “cada vez mais empenhados em fazer coincidir gostos e empregabilidade”.

E quando uma opção certa passa a estar errada? “O Ensino Secundário é flexível, permite haver mudança”, tranquiliza Elisabete Marques exemplificando que se um aluno escolher o curso científico-humanístico de Ciências e Tecnologias, mas quiser entrar na Faculdade de Economia se pode auto-propor a exame. Nada está perdido e é sempre possível reorientar o percurso. Mas é preciso empenho.

E os cursos com mais saídas são…
Com um pouco de futurologia, Paula Fernandes apostaria nas áreas relacionadas com as energias renováveis e o ambiente, mas também com a moda e a estética do corpo, sejam os tratamentos de beleza, o termalismo e as medicinas alternativas. Por último, mas não menos importante, a psicóloga acredita que o turismo e todos os serviços que lhe são inerentes poderão constituir, “sem dúvida”, uma boa aposta profissional.

Sendo Portugal um país pequeno, Paula Fernandes chama sempre a atenção dos seus alunos para a importância do mercado europeu enquanto palco de muitas carreiras. A mensagem não passou ao lado dos ouvidos de Sara, que a par com Nuno tem passado pelo gabinete da psicóloga. “Se não conseguir emprego em Portugal tenho sempre a hipótese de ir trabalhar para o estrangeiro”, garante a aluna.

Mas para já Sara e Nuno ainda têm três anos de estudo pela frente até ao Ensino Superior a que ambos desejam aceder. Paula Fernandes lhes dirá que o Ensino Secundário vai exigir outra atitude diferente da que muitos tiveram até aqui. “Há um choque muito grande nesta passagem, o grau de dificuldade aumenta e normalmente os alunos continuam no mesmo ritmo do Ensino Básico, ou seja, não aceleram, começam a desmotivar e veem as notas baixar.”

E assim, alunos de “nota cinco” no 9.º ano começam a tirar negativas no 10.º ano. Com a mudança da escala, que deixa de ser de 0 a 5 e passa a classificar do 0 aos 20, ainda a lançar mais confusão. Sabendo que muitas das expectativas em relação aos cursos que agora escolhem se vão diluindo com a aproximação do final do 12.º ano, por falta de média, Paula Fernandes faz questão de deixar já no final do 9.º ano um aviso claro aos alunos cujo processo de orientação conclui: “Mentalizem-se que o primeiro teste do 10.º ano já conta para nota!”

Fonte: Educare

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