Estudo com base nos resultados do programa de avaliação internacional PISA 2015 demonstra que há assimetrias regionais, que os alunos com menos expectativas quanto ao futuro têm piores notas e que o estatuto socioeconómico e cultural das famílias interfere no desempenho escolar.

As expectativas dos alunos em relação ao seu estatuto profissional quando chegarem aos 30 anos de idade e a importância que atribuem à ciência e ao método científico para o seu progresso pessoal e académico são fatores que podem explicar as diferenças regionais observadas em Portugal nos resultados PISA 2015. Por outro lado, o estatuto socioeconómico e cultural, que avalia os recursos das famílias, nível de escolaridade e atividades culturais, pesa no desempenho dos alunos. E os comportamentos disruptivos dos alunos, que prejudicam o ensino e a aprendizagem, têm impacto negativo nos resultados do PISA 2015. Estas são as principais conclusões de um estudo de João Marôco, professor associado do ISPA – Instituto Universitário, vogal do conselho diretivo do IAVE – Instituto de Avaliação Educativa, coordenador nacional do PISA 2015. Os resultados da sua pesquisa estão reunidos no texto “Assimetrias Educacionais em Portugal: Através das Lentes do PISA”, publicado no relatório do Estado da Educação 2016 do Conselho Nacional de Educação.

O desempenho dos alunos portugueses nos testes PISA tem vindo a melhorar nos últimos 15 anos, mas há assimetrias educacionais significativas em termos regionais. Há disparidades expressivas no que diz respeito à educação dos jovens de 15 anos, conforme avaliado pelo PISA. A diferença entre as regiões com resultados médios mais baixos, ou seja, Tâmega e Sousa e Alto Tâmega, e as regiões com resultados médios mais elevados, Alto Alentejo e Lezíria do Tejo, que têm classificações próximas dos países que estão no top 5 do PISA 2015, é de mais de 70 pontos.

A análise revela que as regiões com resultados mais baixos no programa internacional, que em 2015 analisou a literacia científica, a literacia matemática, a literacia de leitura e a resolução colaborativa de problemas, são zonas nas quais os alunos têm expectativas mais baixas relativamente ao seu estatuto profissional quando chegarem aos 30 anos de idade e expressam opiniões mais negativas sobre a utilidade das ciências e dos métodos de investigação científica como fonte de saber e conhecimento. São também as regiões em que as famílias têm estatuto socioeconómico e cultural mais baixos e os diretores das escolas referem que os comportamentos disruptivos nas salas de aulas são mais prejudiciais às aprendizagens.

“Pobreza não é destino”
Dezasseis por cento das diferenças regionais podem, segundo o autor da pesquisa, ser explicados pelas expectativas dos alunos relativamente à ocupação profissional que esperam ter aos 30 anos. E, de uma forma geral, as regiões onde os alunos têm expectativas de vir a ter uma ocupação profissional mais diferenciada apresentam melhores desempenhos em literacia científica.

“Não escapou à nossa atenção o facto de aos 15 anos os alunos portugueses já terem uma ideia preconcebida sobre o que podem vir a ser em adultos e que esta preconceção condiciona e afeta as aprendizagens, como avaliado pelo PISA. Estes resultados demonstram que o sistema educativo português não é ainda um forte equalizador social capaz de combater a ideia de que a ‘pobreza não é destino’”, adianta João Marôco.

As regiões com estatutos socioeconómicos e culturais mais baixos são as zonas onde as expectativas dos alunos, quanto à ocupação profissional que podem vir a ter no futuro, são mais baixas. “O PISA 2015 mostra que, em algumas regiões, as escolas ainda não conseguem contrariar o efeito condicionador das baixas expectativas dos alunos e do baixo estatuto socioeconómico e cultural das famílias que servem”, ressalva.

O Tâmega e Sousa, por exemplo, é a região com o estatuto socioeconómico e cultural médio mais baixo e com os resultados médios no PISA 2015 mais baixos. Comparando as expectativas dos alunos e o estatuto socioeconómico e cultural das famílias, o autor do estudo sublinha que “é evidente que as regiões com estatuto socioeconómico e cultural mais baixo são as que também têm os alunos com menores expectativas ocupacionais”. Nos grandes centros urbanos, esse estatuto tem um impacto maior do que nas regiões rurais do interior.

Resultados não são homogéneos
Relativamente aos comportamentos disruptivos dos alunos, este efeito é negativo e relevante no Médio Tejo, terras de Trás-os-Montes e Cávado, enquanto no Alentejo Central observa-se um efeito positivo. “Este resultado pode sugerir que, embora os comportamentos disruptivos dos alunos possam existir, as medidas levadas a cabo por estas escolas podem prevenir o impacto negativo que estes comportamentos têm no desempenho dos alunos nos testes PISA.” No geral, os comportamentos disruptivos relativos ao ensino e à aprendizagem explicam 13% da variação regional observados nos resultados do PISA 2015.

A dimensão das turmas nos resultados do PISA também foi analisada. Regiões como o Alentejo Litoral e a região de Leiria têm melhores resultados médios no PISA e apresentam turmas de menor dimensão média. E regiões como Trás-os-Montes, com resultados mais fracos, têm turmas maiores. No entanto, este efeito não é “consistente” entre regiões. Por exemplo, o Alto Alentejo ou a região do Ave, onde se encontram as escolas com turmas de maior dimensão, têm resultados elevados no PISA.

Os resultados médios das 25 regiões analisadas estão longe de ser homogéneos. Algumas regiões apresentaram resultados consideravelmente acima da média nacional, como, por exemplo, o Alentejo Litoral ou o Médio Tejo, enquanto outras, como o Tâmega e Sousa ou o Algarve, obtiveram resultados consideravelmente abaixo da média nacional nos três domínios avaliados.

Analisar sistemas educativos
Em 2015, o teste PISA foi aplicado, pela primeira vez, em computador e a literacia científica foi o domínio principal avaliado. Participaram cerca de 509 mil alunos de todo o mundo, 17 565 escolas, 95 mil professores e 143 mil encarregados de educação de 72 países. Em Portugal, o teste PISA envolveu 7325 alunos selecionados da população-alvo do PISA, isto é, alunos de 15 anos e três meses a 16 anos e dois meses, com pelo menos seis anos do ensino formal de educação ou formação.

“Partindo dos últimos lugares da tabela de classificação ordenada dos países da OCDE na primeira edição do PISA, em 2000, os alunos portugueses têm vindo a melhorar de forma consistente os seus resultados nas edições posteriores do PISA, em contraste com a tendência geral da OCDE. Em 2015, os alunos portugueses obtiveram, pela primeira vez na história do PISA, um desempenho estatisticamente superior ao dos seus pares da OCDE a ciências (8 pontos) e leitura (5 pontos). A matemática, os resultados médios portugueses ficaram dois pontos acima da média da OCDE, mas esta diferença não foi estatisticamente significativa”, recorda João Marôco.

As classificações nos testes PISA acabam por ter repercussões e podem influenciar e alterar políticas educacionais dos países que participam neste programa de avaliação internacional. “Apesar de o PISA ter como objetivo o nível macro do país e ser usado frequentemente para fazer rankings dos sistemas educativos, este disponibiliza muito mais informação do que apenas os resultados no teste e a posição ordenada do país entre os seus pares. Os resultados do teste PISA e os questionários aos alunos, famílias, professores e escolas fornecem informação valiosa para analisar em profundidade os sistemas educativos”, sublinha o autor da pesquisa.

Fonte: educare.pt