“Imaturidade” é uma palavra que anda gasta de tanto ser mencionada. Se fosse uma peça de vestuário, já estaria esburacada, pronta a ir para o lixo, de tanto desgaste.

Nas reuniões com professores e pais, este vocábulo tem presença quase obrigatória, sendo referido em associação, quase inevitável, aos problemas de comportamento e aprendizagem. Quando é mencionado relativamente aos acontecimentos perturbadores da sala de aula, traduz-se na já repetitiva frase: “Não são mal-educados mas são muito infantis.”

Mas afinal o que é ser imaturo? O que nos leva a afirmar que aquela criança, ou até mesmo um adulto, tem um comportamento marcadamente infantil? Tentar alterar algo implica um maior conhecimento do conceito, pelo que teremos de analisá-lo com mais detalhe.

Segundo Albert Einstein, “A maturidade começa a manifestar-se quando sentimos que nos preocupamos mais com os outros de que com nós mesmos”. O egocentrismo é uma característica muito típica das pessoas imaturas, que se sentem no centro do mundo, à volta do qual tudo gira. A dificuldade em assumir compromissos e em compreender que os sacrifícios e as restrições são necessários para alcançar o sucesso é outra característica típica de quem não amadureceu. O compromisso é percecionado como uma limitação da liberdade e não como uma estratégia para atingir um fim a longo prazo.

A impulsividade é outra característica típica de quem é imaturo, dado que frequentemente há uma ação imediata sem ponderar as consequências. Os erros são habitualmente atribuídos aos outros, não sendo identificados nem percecionados como uma oportunidade de aprendizagem.

Estando o conceito ligeiramente clarificado, analise se pode ter agora a certeza de que lá em casa tem alguém cujo perfil se encaixa perfeitamente no descrito. Em caso afirmativo, tem então duas hipóteses: continuar a agir tal como fez até ao momento presente, acreditando que a passagem do tempo alterará a situação, ou mudar de procedimentos. Profissionalmente, tenho constatado que esperar que o tempo faça sozinho o trabalho da promoção da autonomia é muito pouco profícuo e que é preciso a nossa atuação e intencionalidade para promover mudanças. Como atuar então?

Enquanto continuarmos a dar tudo pronto, não estaremos a ajudar as crianças a desenvolver competências fundamentais para a resolução de problemas. Quem trabalha em contexto escolar sabe que se tornou habitual os pais correrem para a escola de imediato quando os filhos, através de uma breve chamada telefónica, lhes relatam conflitos que os envolvem. Não me refiro a situações que impliquem danos sérios, mas sim pequenos atritos, que os filhos poderiam resolver se fossem incentivados e ensinados para tal. A superproteção dos filhos e a falta de confronto com a natureza e com os outros estão a provocar regressões imensas no desenvolvimento das crianças, que percecionam as contrariedades do dia a dia como obstáculos intransponíveis que alguém tem de resolver por eles.

Os medos instalados na cabeça dos adultos impedem o crescimento saudável das crianças, porque o que impera é a linguagem do “não”, com a justificação de que tudo é perigoso: “não faças porque podes cair”, “não subas porque te magoas”, “não vás para ali que é perigoso”. Um mundo tão assustador convida ao isolamento e impede as crianças de se confrontarem com experiências típicas da idade, que seriam naturalmente promotoras de maior autonomia e independência. Sem risco não há crescimento. Por isso, esta obsessão pela proteção tem tido efeitos muito tóxicos no desenvolvimento da autonomia.

Torna-se urgente mudar de paradigma em termos educativos, pois estamos a promover o desenvolvimento de crianças “totós” incapazes de lidarem com as contrariedades que a vida inevitavelmente traz a todos, sem exceção.

Fonte: educare.pt