Uma equipa de investigação que está a acompanhar o Limites Invisíveis, um programa que arrancou em 2016, em Coimbra, no qual turmas do pré-escolar têm aulas ao ar livre, concluiu que, ao longo da experiência, as crianças desenvolvem maior autonomia, maior consciência ambiental, mas demonstram também menos dificuldades comportamentais.

As conclusões do estudo têm por base as percepções dos 90 pais ou encarregados de educação das crianças que frequentaram o programa, recolhidas através de inquéritos online, mas também se apoiam em entrevistas realizadas a cerca de 105 crianças entre os três e os seis anos que passaram pela Casa da Mata, na Mata do Choupal, em Coimbra. No total, o programa teve 294 participações, tendo havido crianças que repetiram a experiência.

O projecto é desenvolvido por um consórcio composto pela Escola Superior de Educação de Coimbra, pelo Centro de Apoio Social de Pais e Amigos da Escola (CASPAE), que é uma IPSS sediada em Coimbra, e pelo Departamento de Educação e Psicologia da Universidade de Aveiro. Os resultados do acompanhamento são apresentados publicamente esta tarde, em Coimbra. Desde 2016 que turmas de crianças do pré-escolar, de estabelecimentos privados e públicos, têm passado pela Casa da Mata ao longo de oito semanas, tendo quatro dias por semana de aulas ao ar livre.

O princípio é que as crianças possam explorar livremente a natureza, não havendo barreiras físicas à volta da casa, embora com a supervisão de educadoras de infância especializadas em educação outdoor. Não há um programa fixo e os temas vão sendo abordados consoante a curiosidade dos miúdos.

De acordo com os dados enviados ao PÚBLICO pelas investigadoras que acompanham o Limites Invisíveis, “os pais reportaram ganhos muito significativos” em “todas as competências” que tinham sido avaliadas antes do programa e voltaram a ser depois da participação das crianças. Entre elas estão o bem-estar emocional, a partilha de emoções, a autonomia, a auto-confiança, auto-regulação, a criatividade, o pensamento crítico ou a consciência ambiental. Por exemplo, antes do programa, 35,8% dos pais classificavam a autonomia das crianças como sendo elevada ou muito elevada, tendo essa percentagem subido para 87,9% depois do programa.

Já no plano sócio-emocional, de acordo com os pais, as crianças apresentaram “menos dificuldades comportamentais quer em sintomas emocionais (como ansiedade, tristeza, preocupação, medos) quer em sintomas de hiperactividade”.

Analisando a relação entre as respostas dos adultos e das crianças, a investigadora do Centro de Investigação em Didáctica e Tecnologia na Formação de Formadores da Universidade de Aveiro, Aida Figueiredo, nota um dado curioso sobre o cansaço. Embora este aspecto seja referido pelas duas partes, “as crianças percepcionam que há cansaço, mas vêem isto como uma coisa positiva. Os adultos percepcionam como um desafio”, aponta.

90% das crianças referiram que gostaram muito de frequentar o programa e 97,7% “verbalizou que gostava das explorações efectuadas pela Mata do Choupal”.  Segundo os pais, o Limites Invisíveis deixou uma marca na sua dinâmica familiar: as crianças passaram a solicitar mais saídas ao exterior.

Entretanto, o projecto cresceu e estendeu-se ao primeiro ciclo do ensino básico. Assim, foi criado o Salto à Mata, que pressupõe menos tempo passado na natureza quando a comparação é o pré-escolar, mas que segue o mesmo princípio de liberdade para explorar. Emília Bigotte, do CASPAE, explica que a iniciativa arrancou no ano lectivo anterior com a participação três turmas, provenientes de escolas públicas do primeiro ciclo, todas do agrupamento Rainha Santa Isabel, de zonas mais periféricas de Coimbra como Adémia, Eiras e Ingote. Somando o número de alunos de cada turma, há cerca de 50 crianças a participar no programa Salto à Mata, refere.

“Toda a turma vai todas semanas, uma vez por semana, durante o ano lectivo. Tanto pode ser à Mata do Choupal, como às matas circundantes da própria escola, caso existam, mas o princípio é o mesmo”, sublinha. De início, além dos professores das turmas, as experiências, numa primeira fase, são acompanhas pela educadora do Limites Invisíveis.

Tal como acontece no pré-escolar, o programa daquele dia não está definido à partida. “A professora titular de turma aproveita as explorações e o interesse da criança para desenvolver o currículo da escola”, refere a Emília Bigotte.

Fonte: https://www.publico.pt/

Camilo Soldado

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