Este discurso altamente ideológico ignora, no entanto, o efeito positivo, e muito bem fundamentado, do docente no rendimento dos alunos e dá às tecnologias um poder gigantesco, que não fora ainda observado. Para alguns, o ensino a distância será mesmo o método a adotar no futuro, substituindo a escola física.

A escola virtual existe nos Estados Unidos da América há já duas décadas. O que sabemos, pois, dos efeitos deste ensino no rendimento dos alunos em contexto não pandémico?

A escola virtual antes da pandemia

Vários estudos comparam o rendimento dos alunos em ensino exclusivamente a distância com o dos que frequentam uma escola tradicional, ou seja, presencial.

June Ahn e Andrew McEachin mostraram, em 2017, os efeitos negativos das escolas virtuais na aprendizagem dos alunos do ensino básico e secundário. Estes efeitos registaram-se na matemática (−0,41 de desvio-padrão nos alunos mais fracos e −0,30 de desvio-padrão nos mais fortes) e também na leitura (−0,26 de desvio-padrão nos alunos mais fracos e −0,10 de desvio-padrão nos mais fortes).

Dois anos antes, o Centro de Investigação em Resultados Educativos da Universidade de Stanford comparava o rendimento dos alunos de 158 escolas virtuais pertencentes a 17 estados norte-americanos e ao distrito de Colúmbia com o dos alunos das escolas tradicionais. Concluiu-se que os alunos em escolas virtuais obtêm resultados inferiores na matemática e na leitura do que os alunos em escolas tradicionais (desvio-padrão de −0,10 a −0,39).

Carycruz Bueno analisou, já em 2020, o desempenho de mais de 100 000 alunos que frequentaram escolas virtuais do estado norte-americano da Geórgia, no período entre 2007 e 2016. Segundo esta investigadora, «a frequência de uma escola virtual a tempo inteiro resulta numa redução estatisticamente significativa de 0,1 a 0,4 de desvio-padrão nas disciplinas de inglês, matemática, ciências e estudos sociais nos alunos do ensino primário, assim como nos do ensino básico ou do ensino secundário». Sublinha igualmente que «frequentarem uma escola virtual a tempo inteiro está associado a uma redução de 10% da probabilidade de obter um diploma de conclusão do ensino secundário».

Também nos Estados Unidos, Brian R. Fitzpatrick e a sua equipa analisaram os resultados escolares de alunos do 3.º ao 8.º ano de escolas do estado do Indiana num período de sete anos (2010-2017). A análise incidiu em cerca de 2000 alunos brancos de meios mais favorecidos e com resultados escolares geralmente elevados antes de serem admitidos numa escola virtual. O efeito da frequência do ensino online foi profundamente negativo. Nas matemáticas, tiveram uma redução no rendimento de −0,41 de desvio-padrão no primeiro ano após a transferência. Os efeitos tornaram-se um pouco mais negativos no segundo ano (−0,48 de desvio-padrão) e agravaram-se ainda mais no terceiro ano (−0,50 de desvio-padrão). O mesmo acontece na aprendizagem da leitura. Imaginemos, pois, os efeitos da escola virtual no rendimento dos alunos em dificuldades ou em risco, provenientes de meios desfavorecidos.

Uma nova análise às escolas virtuais realizada por Curran A. Prettyman e Tim R. Sass indica que, «no global, os resultados da aprendizagem virtual comparativamente aos da aprendizagem presencial são pouco promissores. As escolas que funcionam totalmente online apresentam, por norma, ganhos na aprendizagem claramente inferiores aos das escolas físicas».

Os confinamentos e o ensino a distância

Numa análise realizada por nós próprios, em 2021, a 19 estudos sobre os efeitos do primeiro confinamento e do ensino virtual no rendimento escolar de cerca de 13 milhões de alunos de escolas primárias e secundárias de vários países do mundo (Inglaterra, Austrália, Bélgica, Canadá, Estados Unidos da América, França e Países Baixos), verificámos uma tendência para resultados negativos na leitura, com maior impacto na matemática, em alunos que frequentaram o ensino a distância durante o primeiro confinamento, sobretudo no ensino primário. Nos alunos em risco, como nos outros, estes desvios parecem ser maiores mesmo num país como os Países Baixos, dos mais bem preparados para alternar o ensino a distância com o ensino presencial. Num dos estudos que examinámos, estima-se uma perda média de cinco a nove meses de aprendizagem até junho de 2021. No caso dos mais vulneráveis, o atraso pode rondar 6 a 12 meses.

Seria perfeitamente lógico antecipar efeitos semelhantes, ou seja, mais negativos no rendimento dos alunos em pandemia partindo dos estudos que demonstram as consequências negativas das escolas virtuais no rendimento dos alunos em contexto não pandémico. (Não esqueçamos que a grande maioria dos estudos só analisou os efeitos após o primeiro confinamento.) Em abril de 2021, muitos países tinham vivido entre dois e quatro confinamentos desde o início da pandemia. Assim, os confinamentos sucessivos poderão, sem dúvida alguma, motivar resultados ainda mais negativos nas crianças.

Além disso, é importante realçar que os confinamentos sucessivos entre o inverno de 2020 e a primavera de 2021 resultaram em múltiplas consequências psicossociais negativas nas crianças que frequentam creches e escolas primárias, e mesmo nos adolescentes do ensino secundário: ansiedade, depressão, dificuldades de concentração, isolamento social e diminuição da atividade física. O sono das crianças e dos adolescentes também parece ter sido perturbado. Os jovens adultos de nível pós-universitário parecem viver sensivelmente as mesmas dificuldades que os mais novos. Os efeitos negativos da pandemia em variáveis além das escolares — ansiedade, sentimentos depressivos, etc. — podem divergir entre países, o que parece dever-se ao grau de confinamento imposto e ao stresse parental.

Em resumo, os efeitos da escola virtual, seja ou não em tempos de pandemia, são geralmente negativos. Ainda assim, caso uma emergência implique encerrar as escolas, consideramos ser claramente preferível disponibilizar o ensino a distância aos alunos para que a escola mantenha um contacto mínimo com as crianças.

Ensinar a distância com as escolas encerradas

É preciso garantir um ensino a distância de grande qualidade caso as escolas encerrem. Isto significa que o ensino virtual deve distanciar-se das pedagogias geralmente associadas às tecnologias. Segundo Daisy Christodoulou, «a tecnologia foi utilizada para introduzir cada vez mais pseudociências na profissão de docente». Ora, é preciso transferir para a formação a distância os elementos cruciais de um ensino eficaz em modo presencial. Os estudos sobre o ensino eficaz demonstraram mais de 50 anos de efeitos benéficos do ensino direto, sistemático e explícito no rendimento escolar de todos os alunos, com impacto ainda maior nos alunos com dificuldades ou em risco.

Independentemente do que defendem os apóstolos da tecnologia, a escola do século XXI deve basear-se no ensino presencial. O ensino a distância utilizar-se-á sobretudo em caso de encerramento dos estabelecimentos de ensino e em contextos de emergência. Para ser eficaz, deve afastar-se das práticas pseudocientíficas de natureza construtivista e basear-se apenas em práticas fundamentadas em dados comprovados, para bem de todas as crianças.

    Steve Bissonnette e Christian Boyer

Fonte: https://www.iniciativaeducacao.org/pt

 

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