Mudanças no ensino

O ambiente vivido nas escolas é determinante para o sucesso educativo. A evidência mostra que alunos satisfeitos com as aulas e os colegas, pontuam melhor na leitura, enquanto uma das áreas avaliadas nos testes do PISA. É este estudo que serve de mote para analisar o ao bem-estar dos alunos europeus.

As escolas não são apenas vistas como lugares onde os alunos adquirem competências académicas. São também “ambientes sociais” em que os alunos desenvolvem competências emocionais e sociais. Determinantes, tanto para o sucesso escolar e como para a vida.

Com o encerramento das escolas fruto da pandemia covid-19, os sistemas educativos enfrentaram desafios acrescidos. “A falta de interação social dos alunos com os colegas e professores e a pressão relacionada com o ensino à distância são referidas como tendo um importante impacto negativo no bem-estar dos alunos”, alerta o relatório Monitor da Educação e Formação 2020, publicado pela Comissão Europeia no final do ano passado.

A avaliação do ambiente vivido nas escolas, seja em matéria de indisciplina, bullying ou sentimento de pertença dos alunos, tem integrado os principais estudos internacionais sobre resultados escolares. A evidência diz-nos que alunos felizes na escola, aprendem melhor e têm melhores resultados. Sendo o contrário, igualmente verdade. Eis alguns exemplos retirados do mais recente olhar sobre os sistemas educativos da União Europeia (UE).

Alemanha
O bem-estar é importante nas escolas alemãs. Três em cada quatro alunos sentem que pertencem à escola, contra 65% da média dos 27 países da UE. Apenas 15,9% se consideram “estranhos” na escola. Este alto nível de bem-estar auto-relatado permanece estável desde 2015, confirma a Comissão Europeia. No entanto, cerca de 22,7% dos jovens com 15 anos relatam ter sido intimidados pelo menos algumas vezes por mês, por comparação a 22,1% da média da UE. O bullying tem um impacto maior no desempenho na leitura entre os alunos que frequentam escolas desfavorecidas, por comparação às favorecidas.

Áustria
Há um sentimento de bem-estar nas escolas austríacas. Apenas um em cada quatro alunos sente que não pertence à escola. É o que mostra o PISA 2018. Ora, o sentimento de não pertença está associado a uma diferença significativa no desempenho de leitura no PISA, antes (-31 pontos) e depois (-18 pontos) de ter em conta o contexto socioeconómico e por comparação com a média da UE de -16 e -8, respetivamente. No bullying, não existem diferenças entre as escolas da Áustria e as dos outros países.  

Bélgica
Um em cada cinco estudantes (18,6%, face à média de 22,1% da UE) disse ter sofrido bullying pelo menos algumas vezes por mês. Isto acontece mais no 3.º ciclo (26,8%), entre alunos com baixo desempenho em leitura (25,6%) e em escolas desfavorecidas (24,3%). A disparidade no desempenho de leitura entre os alunos que relatam ter sofrido bullying (18 pontos) equivale até 6 meses de escolaridade na Bélgica; a diferença entre escolas com baixa e alta prevalência de bullying é de 68 pontos (70 é a média da UE). Políticas eficazes antibullying têm o potencial de melhorar o desempenho na leitura.

Chipre
Um em cada três alunos diz ter sofrido bullying “algumas vezes por mês” e admite que na sua escola é recorrente. Alunos com baixos desempenhos estão muito mais expostos a situações de bullying frequente do os colegas com melhores desempenhos: 54,6% contra 21,1%. O estatuto socioeconómico ou o histórico de migração, porém, não aparecem ser fatores desencadeadores significativos de bullying, diz o relatório da Comissão Europeia. Mas o género, sim: os rapazes (40,9%) mais do que as raparigas (27,2%) dizem-se vítimas frequentes de bullying e parecem aceitá-lo mais. Ser intimidado “algumas vezes por mês” está associado a um pior desempenho de leitura, equivalente a mais de um ano de escolaridade. No Chipre vigoram políticas contra a violência e o racismo na escola, mas os educadores nem sempre têm consciência do que constitui comportamento violento.

Croácia
O ambiente escolar é bom na Croácia. O bullying está abaixo da média da UE. Poucos alunos sentem não pertencer à escola e é menor o impacto destes fatores nos resultados obtidos na leitura. Embora a mudança para o ensino à distância tenha sido rápida e bem-sucedida no geral, houve alguns efeitos adversos na equidade e no bem-estar dos alunos. Um inquérito realizado em 65 escolas com alunos de etnia cigana, revelou que 30% tinham mais de 30% de alunos ciganos que não participavam em aulas online. O Instituto de Pesquisas Sociais concluía que os alunos estavam  satisfeitos com o ensino a distância e o envolvimento dos professores, mas stressados por terem de aprender novos conteúdos de forma isolada para os exames nacionais do ensino secundário. Em abril, o Ministério da Educação lançava uma plataforma online para os ajudar a preparar a época de exames.

Dinamarca
Na escola, os alunos da Dinamarca sentem-se como se estivessem em casa, disseram mo PISA. Apenas 28% discordam, 7,2 pontos percentuais abaixo da média da UE. Escolas, professores e alunos estavam bem preparados, com diferentes plataformas de aprendizagem e boas competências digitais para a transição para o ensino à distância. 80% dos alunos sabiam o que os professores queriam que eles fizessem e sentiam-se parte de uma comunidade de aprendizagem, revelou um inquérito da Universidade de Aarhus a mais de 10 mil alunos do 3.º e do 9.º ano. 80% dos alunos disse ter recebido apoio dos mais de metade de professores e amigos. Menos de 10% consideram que não têm apoio em casa. O encerramento das escolas fez com que mais de 90% dos alunos sentissem saudades dos amigos e 60% dos seus professores. Várias medidas foram tomadas para atender a estes desafios, incluindo o fornecimento de materiais de estudo aos alunos.

Grécia
O país precisa de políticas educativas dirigidas à promoção do bem-estar dos alunos. 19,3% dos alunos sentem que não pertencem à escola. No entanto, um em cada três rapazes e uma em cada cinco raparigas relatam ter sofrido bullying algumas vezes por mês. Os alunos com baixo desempenho (39,3%), comparativamente aos de elevado desempenho (19,9%), são vítimas mais frequentes. A percentagem de alunos que faltam dias ou aulas inteiras à escola é alta. Para atender a estes problemas a legislação introduziu o papel do professor mediador, treinado para lidar com situações de violência. As escolas também podem elaborar regras internas específicas e introduzir medidas disciplinares, incluindo suspensão escolar temporária. Os currículos e os manuais escolares foram revistos com o objetivo de desenvolver nos alunos competências em torno de quatro pilares: meio ambiente, bem-estar, criatividade e educação para a cidadania.

Irlanda
O ambiente disciplinar da escola requer melhorias. Mais de um em cada cinco alunos (22,7%) relatou ter sofrido bullying algumas vezes por mês, um aumento de oito pontos percentuais em relação a 2015, e agora igual à média da UE. Quase um terço dos alunos (30%) referiu ter faltado um dia à escola (24% na UE). Ao contrário do que acontece noutros países da UE, mais raparigas referiram faltar à escola do que rapazes (4,5 pontos percentuais). A par, dá-se uma diminuição no sentido de pertença relatado na escola, menos  6,6 pontos percentuais entre 2015 e 2018. Este aspeto é particularmente importante, sublinha a Comissão Europeia, uma vez que os alunos que relataram um sentimento de pertença na escola pontuaram mais 13 pontos em leitura (8 pontos na média da UE). A questão do bem-estar do aluno tem estado no centro das consultas nacionais sobre o ensino secundário, agora, foi intensificada pelo fecho das escolas e poderá justificar uma reforma.

Malta
Combater o insucesso e o abandono escolar em Malta, que é o segundo maior da UE (16,7% vs 10,2% em 2019), passa por fazer do bem-estar dos alunos uma prioridade. Mas a covid-19 atrasou a implementação de reformas a este nível. O PISA 2018 mostra que o bullying é um grande problema em Malta: cerca de 32% dos alunos relatam ter sido intimidados algumas vezes por mês, em comparação com 22,1% ao nível da UE. A taxa é significativamente mais elevada entre os alunos com baixo desempenho (47,3% vs 25,5% para alunos com elevado desempenho). Acresce uma percentagem relativamente elevada de alunos que sentem que não pertencem à escola (36,2%). Ora,  isso contribui ainda mais para um baixo desempenho em leitura (-40 pontos do PISA em leitura) e pode impactar na taxa de abandono escolar. Durante o confinamento, foi recolhida informação junto dos professores com o objetivo de melhor apoiar o bem-estar dos pais e das crianças.

Polónia
O ambiente escolar e o bem-estar dos alunos requerem atenção. Em 2018, a percentagem de alunos que sentiam pertencer à escola (60,8%) era inferior à média de 65,2% da UE, e a percentagem de alunos que relataram ter sofrido bullying algumas vezes por mês aumentou 5,27 pontos percentuais para 26,4 %. O bullying é particularmente comum entre alunos com baixo desempenho (36,3% versus 21,2% para alunos com elevado desempenho). Em 2019, o Ministério da Educação apontava a relação entre a melhoria do ambiente escolar e o aumento das ambições académicas e atitudes positivas dos alunos em relação à aprendizagem ao longo da vida, uma vez que as experiências educativas negativas constituem uma das barreiras à formação e educação de adultos.

Portugal
Comparativamente aos restantes países europeus, o bem-estar dos alunos é bom. Em Portugal, poucos estudantes (14%) relataram ter sofrido bullying algumas vezes por mês, o segundo menor na UE. Uma pequena proporção de alunos relatou sentir-se sempre triste, em comparação com outros países e economias participantes do PISA 2018.

Eslováquia
31% dos alunos eslovacos não se sentem parte da comunidade escolar, o que também afeta o seu desempenho: em média têm 21 pontos a menos na leitura. O ambiente escolar desfavorável também pode impedir o desenvolvimento das competências sociais e emocionais das crianças na escola, lembra a Comissão Europeia. O baixo nível de alunos resilientes na Eslováquia está provavelmente relacionado ao alto índice de isolamento , já que os alunos desfavorecidos têm menos probabilidade de superar as adversidades e de ter um bom desempenho na escola. O bem-estar dos alunos na escola requer mais atenção. Mais de um em cada quatro alunos (28,3%) relatou ter sofrido bullying algumas vezes por mês (22,7% na UE). Os alunos com baixo desempenho estão muito mais expostos ao bullying frequente do que alunos com alto desempenho (39,8% versus 18,6%) .

Espanha
Há indícios de alguns problemas disciplinares nas escolas, mas o bem-estar dos aluno é relativamente bom. Em relação aos colegas da UE, os alunos espanhóis são com menos frequência vítimas de bullying, estão mais satisfeitos com suas vidas e o seu sentimento de pertença à escola é o mais forte, comparando a todos os países participantes do PISA 2018. Ainda assim, o ambiente disciplinar era pior do que a média, e a proporção de alunos que faltaram à escola ou às aulas nas duas semanas anteriores ao teste PISA estava acima da média da UE.

França
61,9% dos alunos franceses sentem que não pertencem à escola. O sentimento de não pertença é generalizado e, segundo a OCDE, reduz a motivação para aprender. No entanto, depois de levar em conta os perfis socioeconómicos dos alunos e das escolas, está associado a apenas uma redução de cinco pontos no desempenho de leitura dos alunos. Como em outros países, o bullying tem um grande impacto negativo nos resultados da leitura. E afeta um em cada cinco alunos, pelo menos algumas vezes por mês (19,8% face à média da UE de 22,7%).  O bullying está associado a uma diferença de desempenho equivalente a meio ano de escolaridade (18 pontos) e coloca um fosso entre as escolas favorecidas e desfavorecidas.

Suécia
Também na Suécia o bem-estar dos alunos afeta os resultados escolares. Um terço de todos os alunos sente que não pertence à escola, o que tem um efeito muito negativo ao nível do desempenho de leitura (-23 pontos versus -16 da média da UE). Embora os alunos na Suécia não sejam propensos a faltar à escola, os alunos desfavorecidos têm duas vezes mais probabilidade de o fazer do que os favorecidos (13,1% contra 6,9%), assim como os alunos de origem migrante (15,8% contra 8,3% nativos, quase o dobro da diferença de 4,9 pontos percentuais da UE).

Fonte : https://www.educare.pt/